- Vossa Excelência deve saber o valor da confiança que o povo depositou em suas mãos. Deve compreender que o poder deve ser exercido como mandam as boas normas da democracia, criadas há mais de dois mil e quinhentos anos e adotadas por quase todo o mundo como princípios fundamentais da liberdade que tanto queremos para nós e nossos filhos, e que se resumem na noção de ser a democracia o governo do povo, para o povo e pelo povo !!!.
Aplausos grandiosos enchem o salão nobre do Parlamento, e todos os olhares se dirigem, não ao preletor, considerado Defensor Perpétuo da Pátria e chefe de Estado único do País, mas a quem está sentado à sua direita, aquele que será o novo dirigente do País e que deverá suceder o preletor no comando daquela grande Nação.
Olhares de admiração contemplam o velho soberano, orgulhoso de suas virtudes e amado pelos seus, e outros tantos observam, calmamente, o futuro mandatário, que deverá ser tão querido e idolatrado quanto aquele que falava naquele momento.
...
- Vossa Excelência, em nossos anos de convivência, sempre provastes ser digno de tal honraria. Provou conseguir o apoio de seu povo, para chegar onde chegou. Em muitos anos de vida pública e privada, jamais vi homem que conseguisse tamanha aprovação em todos os cantos do nosso País, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, somente com seu próprio carisma...
Mais aplausos completavam o ambiente festivo. Porém notava-se uma certa seriedade incomum no novo eleito, alguma coisa que destoava do ambiente - pois, naquele momento, o futuro líder olhava para os cantos, pensando consigo mesmo:
“Pois é, enfim chegaste onde queria. Tantas lutas, desilusões, fracassos... e, finalmente, a vitória.
Mas como foi duro chegar aqui!
Primeiro, as prévias do partido, onde ninguém era de ninguém, e era preciso conquistar os votos "na raça" - custe o que custasse, a qualquer preço que fosse possível pagar (e até o impossível).
Ganhei, mas por pouco - e que suado! Depois, as eleições.
Dureza... correr atrás de eleitores, caciques políticos, apertar mãos, beijar pessoas.
Fui acusado de tudo: safado, canalha, corrupto ... estuprador, assediador, bicha!...
... tudo mentira, o que era verdade a gente manteve em sigilo, sigilo ABSOLUTO, pois não dava p´ra dizer nada, nada, NADA...
Quantos jantares, meu Deus! Quanta amolação, quantos tapinhas nas costas ... quanta falsidade!”
...
Parou para respirar, mas o pensamento não parava:
“E, no final das contas, aqui estou eu...
O que virá depois? Serei mal-amado, maltratado, falarão mal de mim pelas costas, virão mais puxa-sacos, mais amolação ... e mais sujeira, e que sujeira!”
Percebia-se na plateia o suor do futuro mandatário. O que seria?
Emoção? Luz dos holofotes? Talvez... medo?
...
“Não sei se serei capaz de fazer isso. Não vou conseguir. Não vou ...”
- E assim, Vossa Excelência, só posso dizer-lhe uma coisa, agora que lhe passo os símbolos da Nação - que o futuro decida sobre seu destino, e que o povo seja o juíz de seu futuro!
Grandes aplausos, e iniciava-se a parte seguinte da cerimônia: a leitura da declaração de posse do novo governante. Após lê-la, o poder mudaria de mãos definitivamente. Não haveria chances de retorno, não haveria choros, não haveria nada - somente a mudança de poder.
O homem suava mais. Calafrios corriam por seu corpo, e sua mente pensava somente em uma coisa:
“Não vou ... não vou ... não sei se posso ... não vou ....”.
Chega a hora. Levanta-se, vai ao posto de honra e começa a ler:
- Declaro.... declaro que .... declaro solene..mente....que ...
Nesse momento, tudo passa rapidamente por seu cérebro: desilusões, dinheiro, prestígio, poder, glória e um lugar na história. E conclui, sorrateiramente:
“Ora, bolas... que é isso...
Lutei tanto para chegar aqui, neste momento, e vou desistir?
Não seria justo com o povo, com quem confiou em mim, me deu dinheiro, prestígio e votos...
... e principalmente, comigo mesmo, porque não? ORA...”
...
- Declaro, solenemente, que aceito a vontade do povo que me elegeu para tão ilustre cargo deste País. Prometo lutar para que a democracia seja firme e sólida, e para que o nosso povo esteja sempre entre os grandes lugares da História.
ASSIM EU JURO E CONFIRMO. PORTANTO, CUMPRA-SE!”
Aplausos, gritos e saudações marcam o início de uma nova era. O novo líder olha para seu povo, para os que estão junto de si, para dentro de si mesmo ...
... e sorri, certo de que aquilo que fez realmente estava de acordo com o esperado.
fps, 29/06/2026, 16:35

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