segunda-feira, 22 de junho de 2026

Prosa: Vossa Excelência




- Vossa Excelência deve saber o valor da confiança que o povo depositou em suas mãos. Deve compreender que o poder deve ser exercido como mandam as boas normas da democracia, criadas há mais de dois mil e quinhentos anos e adotadas por quase todo o mundo como princípios fundamentais da liberdade que tanto queremos para nós e nossos filhos, e que se resumem na noção de ser a democracia o governo do povo, para o povo e pelo povo !!!.


Aplausos grandiosos enchem o salão nobre do Parlamento, e todos os olhares se dirigem, não ao preletor, considerado Defensor Perpétuo da Pátria e chefe de Estado único do País, mas a quem está sentado à sua direita, aquele que será o novo dirigente do País e que deverá suceder o preletor no comando daquela grande Nação. 

Olhares de admiração contemplam o velho soberano, orgulhoso de suas virtudes e amado pelos seus, e outros tantos observam, calmamente, o futuro mandatário, que deverá ser tão querido e idolatrado quanto aquele que falava naquele momento.

...

- Vossa Excelência, em nossos anos de convivência, sempre provastes ser digno de tal honraria. Provou conseguir o apoio de seu povo, para chegar onde chegou. Em muitos anos de vida pública e privada, jamais vi homem que conseguisse tamanha aprovação em todos os cantos do nosso País, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, somente com seu próprio carisma...

Mais aplausos completavam o ambiente festivo. Porém notava-se uma certa seriedade incomum no novo eleito, alguma coisa que destoava do ambiente - pois, naquele momento, o futuro líder olhava para os cantos, pensando consigo mesmo:

“Pois é, enfim chegaste onde queria. Tantas lutas, desilusões, fracassos... e, finalmente, a vitória.

Mas como foi duro chegar aqui! 

Primeiro, as prévias do partido, onde ninguém era de ninguém, e era preciso conquistar os votos "na raça" - custe o que custasse, a qualquer preço que fosse possível pagar (e até o impossível). 

Ganhei, mas por pouco - e que suado! Depois, as eleições. 

Dureza... correr atrás de eleitores, caciques políticos, apertar mãos, beijar pessoas. 

Fui acusado de tudo: safado, canalha, corrupto ... estuprador, assediador, bicha!...

... tudo mentira, o que era verdade a gente manteve em sigilo, sigilo ABSOLUTO, pois não dava p´ra dizer nada, nada, NADA... 

Quantos jantares, meu Deus! Quanta amolação, quantos tapinhas nas costas ... quanta falsidade!”

...

Parou para respirar, mas o pensamento não parava:

“E, no final das contas, aqui estou eu... 

O que virá depois? Serei mal-amado, maltratado, falarão mal de mim pelas costas, virão mais puxa-sacos, mais amolação ... e mais sujeira, e que sujeira!”

Percebia-se na plateia o suor do futuro mandatário. O que seria? 

Emoção? Luz dos holofotes? Talvez... medo?

...

“Não sei se serei capaz de fazer isso. Não vou conseguir. Não vou ...”

- E assim, Vossa Excelência, só posso dizer-lhe uma coisa, agora que lhe passo os símbolos da Nação - que o futuro decida sobre seu destino, e que o povo seja o juíz de seu futuro!

Grandes aplausos, e iniciava-se a parte seguinte da cerimônia: a leitura da declaração de posse do novo governante. Após lê-la, o poder mudaria de mãos definitivamente. Não haveria chances de retorno, não haveria choros, não haveria nada - somente a mudança de poder.

O homem suava mais. Calafrios corriam por seu corpo, e sua mente pensava somente em uma coisa:

“Não vou ... não vou ... não sei se posso ... não vou ....”.

Chega a hora. Levanta-se, vai ao posto de honra e começa a ler:

- Declaro.... declaro que .... declaro solene..mente....que ...

Nesse momento, tudo passa rapidamente por seu cérebro: desilusões, dinheiro, prestígio, poder, glória e um lugar na história. E conclui, sorrateiramente:

“Ora, bolas... que é isso...

Lutei tanto para chegar aqui, neste momento, e vou desistir? 

Não seria justo com o povo, com quem confiou em mim, me deu dinheiro, prestígio e votos... 

... e principalmente, comigo mesmo, porque não? ORA...”

...

- Declaro, solenemente, que aceito a vontade do povo que me elegeu para tão ilustre cargo deste País. Prometo lutar para que a democracia seja firme e sólida, e para que o nosso povo esteja sempre entre os grandes lugares da História. 

ASSIM EU JURO E CONFIRMO. PORTANTO, CUMPRA-SE!”

Aplausos, gritos e saudações marcam o início de uma nova era. O novo líder olha para seu povo, para os que estão junto de si, para dentro de si mesmo ... 

... e sorri, certo de que aquilo que fez realmente estava de acordo com o esperado.


fps, 29/06/2026, 16:35

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